Educação Musical e Alfabetização

Após quase 3 décadas de extensas pesquisas realizadas por todo o mundo sobre a relação direta entre música e alfabetização, surge a pergunta: como ainda é possível que o estudo sério da música não seja prioridade na educação de nossas crianças?

O aprendizado de música e de um idioma (falado ou escrito) compartilham diversos processamentos cerebrais em comum. Em relação à leitura, por exemplo, a conexão primária é a decodificação de símbolos em sons, o que ocorre tanto na leitura de palavras como na de notações musicais.

Veja bem, essas são habilidades desconectadas uma das outras. Uma criança alfabetizada não sabe necessariamente ler uma partitura e vice versa. Mas ao analisarmos os processos cerebrais para que tais atividades sejam aprendidas e masterizadas, encontramos semelhanças e até mesmo etapas complementares.

Vou explicar melhor abaixo.

Uma criança alfabetizada vê um símbolo escrito como a sílaba “ba”, por exemplo. Imediatamente, ela ouve o som dessa sílaba em seu cérebro. Pense nisso como se ela pudesse acessar uma imensa biblioteca de sons conectados a símbolos escritos de um determinado idioma.

A próxima etapa é seu cérebro enviar para as cordas vocais e a boca quais movimentos devem ser executados para que a sílaba “ba” possa soar. Ao dizer a sílaba em voz alta, imediatamente sua audição é utilizada para verificar se o som que saiu de sua boca é o mesmo que ouviu em sua cabeça previamente. Ao verificar o som, ela confirma se ele corresponde ao som gravado na “biblioteca” de seu cérebro ou se é diferente.

(esse é um dos muitos motivos que músicos profissionais devem ouvir sempre ótimas execuções a fim de formar uma “biblioteca” com boas referências em seus cérebros)

A criança então possui basicamente 2 alternativas: tentar fazer o som novamente, para que corresponda melhor com a gravação do cérebro ou iniciar um processo de modificação dessa gravação prévia para corresponder ao novo som, exatamente como desenvolvemos e otimizamos nossa fala nos primeiros anos de vida.

O processo de aprendizado de um instrumento musical é o mesmo.

Uma criança lê uma nota em uma música, digamos que seja a nota “sol”, para executar na flauta doce; ela deve então fazer duas coisas: ouvir como esse símbolo soa em suas cabeças e dizer à boca, à respiração e aos dedos como se mover para criar esse som.

Depois disso, ela checa com seus ouvidos se o som combina com o da sua cabeça para ou estar satisfeita com a execução ou tentar novamente.

E ambos os casos, é imprescindível a construção de uma biblioteca de sons em nossos cérebros. Quando as crianças são alfabetizadas, elas confiam em suas próprias memórias dos sons das letras para depois aplicá-las aos símbolos que vê no papel.

Porém, tão importante quanto possuir essa “biblioteca de sons” é saber utilizá-la. A criança deve ter a capacidade de separar os sons da fala, por exemplo, de todos os outros sons que ouvem, e conseguirem decodificá-la como um som especial e específico para aquela função. Para isso existem diversas atividades musicais que auxiliam e que são comuns para se aplicar com bebês ou crianças em fase de pré alfabetização, como, por exemplo, ouvir quando um som muda, quando os sons começam e param, de que direção o som está vindo, a qual timbre corresponde o som, com qual dinâmica aquele som está sendo executado, se ele é mais grave ou mais agudo, etc.

Exercícios como esses ajudam a formar a base do processamento auditivo e a já mencionada “biblioteca de sons” em nossos cérebros. Se adequadamente trabalhadas, de modo a desenvolver a capacidade de discernimento de qualidades diversas do som, o aprendizado da fala e da leitura (alfabetização) terá um grau de eficiência bastante superior, de modo a ocorrer com relativa facilidade.

Existe ainda uma janela de oportunidade para que tais benefícios ocorram em seu potencial máximo. O primeiro período de desenvolvimento significativo do cérebro é entre as idades de 0 e 7 anos.

Se o cérebro de uma criança desenvolver durante esse período boas bases de processamento auditivo, ele utilizará essa capacidade durante toda a vida, colherá os benefícios em tudo o que fizer, até mesmo durante sua velhice. Por outro lado, não propiciar esse desenvolvimento nos primeiros sete anos de vida de uma criança, tornará muitos aspectos de sua aprendizagem difíceis ou até mesmo atrasados.

As crianças que estão envolvidas em um aprendizado musical sério, com boas práticas que desenvolvem a inteligência musical e envolvem o estudo de canto e de instrumentos musicais apresentam elocução firme e elevada, leitura diligente, hábil consciência de fonemas, alta compreensão de leitura e sintaxe da linguagem.

Bom demais para ser verdade? Calma, o esforço e o trabalho árduo são premissas para tudo que traga frutos.

Leva anos para crianças conseguirem, em um instrumento musical, tocar as notas certas, no momento certo. É preciso haver muita prática, repetição e correção para aprender esse processo. Elas precisam mostrar persistência e contarem com exemplos altamente qualificados e constantes para poderem modelar essa prática da maneira correta e fluente.

Ao olhar para o aprendizado musical e a alfabetização como atividades correlacionadas na educação de nossas crianças, estamos oferecendo a elas uma oportunidade mais concreta para que consigam dominar, a partir da criação em maior quantidade de processos e conexões cerebrais com o mesmo fim, a escrita, a leitura e a elocução com elevada desenvoltura.

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